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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Homossexualismo ou homossexualidade?

“Já fui corrigido algumas vezes por usar a palavra ‘homossexualismo’, por pessoas (em geral gays) que dizem que ‘ismo’ tem sentido de doença e que ‘homossexualidade’ é o termo certo. Isso tem fundamento? Uso a palavra ‘homossexualismo’ sem maldade, por julgá-la de uso generalizado.” 



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A questão é uma daquelas em que – como no caso de presidente x presidenta e de americano x estadunidense – a língua vira um campo de batalha. O combate pode envolver diversos tipos de argumento – linguísticos, históricos, etimológicos, científicos – mas eles não passam de armas. O que está em jogo para valer é uma questão política.

Sim, ao ser cunhada, naquele ambiente infestado de ideias pseudocientíficas de fins do século 19, a palavra homossexualismo vinha impregnada de conotações médicas, patológicas. Incrivelmente, só em 1990 a Organização Mundial de Saúde a excluiu de sua lista de distúrbios mentais.

Não, a palavra homossexualismo, ao longo da história, não ficou presa a essa primeira acepção. O sufixo de origem grega ‘ismo’, além de denotar “condição patológica”, é o mesmo que usamos para indicar “doutrina, escola, teoria ou princípio artístico, filosófico, político ou religioso”; “ato, prática ou resultado”; “peculiaridade”; “ação, conduta, hábito, ou qualidade característica” (Aurélio). Como se vê, o termo homossexualismo pode soar inocente e até positivo, como turismo, patriotismo, lirismo, escotismo etc. E o que dizer das conotações negativas de ruindade, fealdade, crueldade, calamidade, orfandade – “parentes” sufixais de homossexualidade?

Naturalmente, os adversários do uso de “homossexualismo” argumentam que nada disso importa, pois o que está em questão é uma luta simbólica. Ao transformar a palavra em ícone de tudo o que é preconceituoso e opressivo contra os gays, tomando-a ao pé da letra de seu pecado original, provoca-se um estranhamento que desperta consciências. Se, em vez de homossexualidade, o vocábulo proposto para seu lugar fosse “maracujá”, o efeito seria o mesmo. Para não mencionar que, sendo homossexualismo um termo típico do Brasil, pouco usado em Portugal, há quem imagine que só por isso já deve ter algum problema…


No entanto, os defensores de “homossexualismo” podem não ficar convencidos. Talvez alertem então para o exagero de uma condenação tão sumária: não haveria o risco de, criminalizando-se um uso bem intencionado, alienar as pessoas em vez de sensibilizá-las para uma causa justa? Isso não é um pouco como inventar o inimigo para justificar uma guerra declarada de antemão? E sendo os usos linguísticos tão notoriamente impermeáveis a qualquer tipo de regulamentação, não valeria a pena poupar a energia desse combate para empregá-la em outras frentes da guerra contra o preconceito e a intolerância à diferença?
A esta altura, claro, já entramos faz tempo no terreno da política. O fato é que as duas palavras estão no dicionário. O resto é com você.
Você usa a palavra “homossexualismo” ou “homossexualidade”?

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Documentário The Mask You Live In

O que é ser homem para você? Ter poder e dinheiro? Transar com muitas mulheres ao longo da vida ou, então, mentir sobre isso a outros homens? Casar e ter filhos, de preferência homens? Então, ensinar a esses meninos como serem verdadeiros homens?


O  documentário The Mask You Live In que está disponivel na Netflix fala sobre essas perguntas e vai além, trazendo um panorama sobre a “crise dos meninos” nos EUA e os efeitos devastadores da dita “cultura do macho” para a sociedade. 

Por meio do relato de experiências vividas por crianças, jovens e adultos, e da análise de psicólogos, educadores e estudiosos do assunto, The Mask You Live In conta sobre a perpetuação dos modelos de comportamento e gênero, de como ensinamos nossos meninos a serem homens. “Seja um homem” é classificada por um dos entrevistados como uma das frases mais destrutivas da nossa cultura. Sobre esse contexto, o filme denuncia com intensidade a responsabilidade de pais, escolas, da indústria do entretenimento (cultura dos games, das celebridades e da música rap americana como exemplos) e do mundo dos esportes (e seus treinadores, que desde muito cedo, doutrinam meninos à competitividade, violência e repressão de qualquer manifestação de fragilidade). 


Ensina-se já nos primeiros 6 anos de vida, fase em que especialistas apontam como a que mais determina o adulto que seremos, como se deve neutralizar emoções e hierarquizar qualquer tipo de relação pelo domínio e subjugação do outro. Logo no início do filme, isso é exemplificado por um dos educadores entrevistados com a seguinte situação: 


Entre em qualquer playground dos EUA, onde crianças brincam alegremente. Pergunte a elas ‘Quem é a mulherzinha aqui?’, e dois meninos vão começar a se apontar, ou todos apontarão um único menino, que acabará brigando com todos ou então voltará para a casa chorando.” 



Esse comportamento acaba se perpetuando em uma cultura que estimula insegurança sobre a masculinidade, fazendo com que esta tenha que ser provada o tempo todo. Uma cultura que cria, geração após geração, homens que odeiam mulheres. 
Homens que, plenamente convictos do que estão fazendo, matam 50 pessoas em uma boate gay. Isso liga o filme, de uma certa maneira, a outro documentário, She’s Beautiful When She’s Angry, que aborda a necessária luta feminista diante dessa cultura que estimula e molda inimigos.

Uma série de casos de bullying, trotes violentos, estupros e assassinatos em massa são citados ao longo do documentário como consequências do que se instituiu ser homem na América. 
Alcoolismo e abuso de outras drogas são quase institucionalizados como comportamento. O altíssimo índice de tentativas e de suicídios consumados é outro triste dado revelado por The Mask. Meninos que não se encaixam, que sofrem abusos e que são educados para não falar sobre isso acabam interrompendo suas vidas ainda na adolescência. 


Mesmo diante de um cenário devastador, conclui-se The Mask You Live In com olhar otimista, apresentando uma série de iniciativas e projetos de educadores que estão combatendo esse aspecto cultural tão enraizado, estimulando diálogo, compartilhamento de experiências e a livre expressão entre homens, desde quando crianças até a idade adulta. 





O filme também cobra a responsabilidade de cada um de nós em expandir o que é ser homem, tanto para nós mesmos, quanto para os meninos que estamos criando. Não agir sobre isso e, ainda por cima, minimizar a dor do outro, nos torna, de alguma forma, cúmplices de massacres como os de Orlando, e dos abusos, estupros e suicídios de cada dia.







sábado, 23 de abril de 2016

SEXUALIDADE: GAY, LÉSBICA, RÓTULOS e PRECONCEITO.

Até por volta de 1990, os termos sexo e gênero se confundiam.


A partir do citado período, o sexo permaneceu na ordem do biológico, enquanto o gênero passou a ser uma categoria múltipla e relacional e deixou de ser visto como diferença sexual dicotômica (feminino e masculino) que é considerada uma construção social e cultural arbitrária.
As pessoas que nasceram a partir meados de 1990/2000 (a chamada geração Z) desenvolveram-se em um meio onde não impera a padronização, mas a neutralidade de gêneros, sua diversidade e tolerância.
Atualmente existe um leque de possibilidade de gêneros. Inúmeros adolescentes e jovens não aceitam mais rótulos, se recusam a serem confinados em um padrão de sexualidade, numa única categoria.
Isto significa dizer que o tempo do sistema binário de gênero onde a heterossexualidade era obrigatória ficou ultrapassado e o gênero não mais é visto como atrelado ao sexo, à aparência ou à certidão de nascimento.
Os sufixo “a” e “o” que identificavam feminino e masculino já estão sendo paulatinamente substituídos por “x” ou “e”. Exemplo:   as palavras “amige” e “namoradx” substituindo amigo/amiga, namorado/namorada.  É possível até que seja introduzido em nossa gramática um pronome neutro além dos existentes “ele” e “ela” para abarcar as demais pluralidades de gêneros.
Hoje em dia as pessoas não dão a importância à orientação sexual dos outros como antigamente. É possível encontrar pessoas que assumem ter tido relações sexuais com pessoas de ambos os sexos.  Não sentem necessidade de se definir e se dão o direito de mudar sua preferência nesta área no decorrer da vida. Tanto que, ouve-se a expressão “estou gay” ao invés de “sou gay” de pessoas com orientação sexual não preponderante ou que tem intenção de vivenciar diferentes experiências.
Às vezes situações adversas determinam com quem a pessoa pode ter relações sexuais como penitenciária e outros ambientes onde a falta de opção é capaz de induzir indivíduos héteros a ter relações homossexuais.
Cada vez menos os pais proíbem seus filhos de ter amigos gays e  a tentativa paterna de alterarem a condição sexual dos filhos, mesmo que dela discordem, tornou-se inadmissível.
É provável que os vocábulos Bi, hetero e gay caiam em desuso com o passar do tempo, pois a preferência sexual cada dia mais está deixando de ser objeto de preocupação e curiosidade. E quando isto acontecer este texto se tornará apenas um registro histórico da evolução cultural humana